Inverno na Alemanha: por que brasileiros sofrem tanto (e o que fazer)

Por Giovanna Campana · CRP 06/75378 · Psicóloga e Psicanalista

Novembro chega. O relógio volta uma hora. Às quatro da tarde já está escuro. Você sai de casa no escuro e volta no escuro. No meio, um céu cinza que não muda há semanas.

E junto com a escuridão, vem um cansaço que não tem explicação. Dormiu oito horas e acordou exausto. Não tem vontade de sair, de cozinhar, de ligar para ninguém. Você come mais, se move menos, e tem dias em que a única coisa que quer fazer é ficar debaixo do cobertor.

Se isso te parece familiar, provavelmente não é preguiça. É o seu corpo reagindo a algo para o qual ele não foi preparado.

O que acontece no corpo quando a luz some

O Brasil é um país tropical. Mesmo no inverno do sul, os dias têm pelo menos dez horas de luz. No nordeste, o sol é constante o ano inteiro. Seu corpo cresceu com essa luz. Seus ritmos de sono, energia e humor foram calibrados por ela.

Na Alemanha, entre novembro e fevereiro, os dias têm entre sete e oito horas de luz — e mesmo nessas horas, o sol muitas vezes está atrás de nuvens. Em cidades do norte como Hamburgo, dezembro pode ter menos de sete horas de luz natural.

Quando o corpo recebe menos luz, produz mais melatonina — o hormônio do sono. Por isso a sonolência constante. Ao mesmo tempo, a produção de serotonina — que regula o humor — diminui. Menos serotonina significa mais tristeza, mais irritabilidade, menos motivação.

Isso tem nome: Transtorno Afetivo Sazonal. É uma condição real, reconhecida pela medicina, que afeta milhões de pessoas em países com invernos longos. E afeta especialmente quem veio de climas tropicais, porque o corpo simplesmente não está adaptado.

A evolução: primeiro, segundo, terceiro inverno

Brasileiros na Alemanha costumam descrever uma progressão parecida.

O primeiro inverno é novidade. Faz frio, mas tudo é novo — neve, Glühwein, mercados de Natal, roupa de inverno. Você aguenta com entusiasmo de turista. E o começo do inverno até tem seu charme: outubro traz o Halloween, novembro os mercados, dezembro é cheio de luzes e festas. Tem motivo para sair de casa.

O problema começa em janeiro. As luzes apagam. Os mercados fecham. As festas acabam. E o que sobra é o inverno puro — escuro, frio, cinza, sem nada no calendário para esperar. Janeiro, fevereiro, março, às vezes abril. Semanas que parecem iguais.

É nesse período — de janeiro até a Páscoa — que o peso realmente chega. Não no Natal, não no Ano Novo. Depois. Quando a distração acabou e você fica sozinho com o inverno.

O segundo inverno é quando a ficha cai. A novidade passou. Você já sabe o que vem. E dessa vez é mais difícil porque sabe que vai durar meses.

Do terceiro em diante, o impacto se instala. Não é mais sobre o clima. É sobre o que o clima faz com a sua vida: o isolamento social, a distância da família que dói mais quando está escuro, a sensação de que a vida está em pausa até a primavera voltar.

Sinais que merecem atenção

O problema da depressão sazonal é que os sintomas chegam devagar. Você não acorda um dia pensando "estou com depressão." Vai perdendo energia aos poucos. Perdendo vontade. Perdendo leveza.

Alguns sinais para prestar atenção:

Você dorme mais que o normal e mesmo assim acorda cansado. Não tem vontade de fazer coisas que antes gostava — séries, hobbies, encontros com amigos. Come mais, especialmente carboidratos e doces — o corpo busca serotonina pela comida. Se irrita com coisas pequenas de forma desproporcional. Sente uma tristeza sem motivo claro. Se isola — cancela planos, responde mensagens com menos frequência, some um pouco.

Se você se reconheceu em vários desses sinais, vale prestar atenção. Seu corpo está te dizendo algo.

A armadilha do "eu escolhi vir para cá"

Tem uma frase que todo brasileiro no exterior já disse: "Eu escolhi vir para cá. Não tenho direito de reclamar."

Essa frase é uma armadilha. Ela transforma sofrimento legítimo em culpa. E a culpa impede você de buscar ajuda.

Você tem todo direito de achar o inverno difícil. Sentir falta do sol, do calor, do céu azul. Sentir cansaço de uma escuridão que o seu corpo nunca conheceu. Reconhecer isso não é ingratidão — é honestidade.

O que ajuda na prática

A diferença entre sobreviver ao inverno e viver bem durante ele está no planejamento. Algumas coisas que fazem diferença real:

Rotina estruturada. No inverno, a vontade vem depois da ação, não antes. Defina horários fixos para acordar, se mover, sair de casa. Uma rotina previsível dá ao corpo um trilho para seguir quando a motivação some.

Luz natural. Saia de casa durante o horário de luz, mesmo que sejam 20 minutos no almoço. A luz natural, mesmo num dia nublado, é mais potente do que qualquer lâmpada. Lâmpadas de luz terapêutica (Tageslichtlampen) também ajudam — 20 a 30 minutos pela manhã, custam entre 30 e 60 euros.

Coisas no calendário. O período de janeiro a abril parece vazio. Coloque coisas para esperar: jantar com amigos, museu novo, passeio de fim de semana. A Alemanha tem castelos, vilas medievais, florestas que ficam lindos no inverno. A Páscoa é uma boa meta.

Uma semana de sol. Se for possível, reserve uma semana entre janeiro e março para ir a algum lugar com luz — Espanha, Portugal, Canárias. Uma semana de sol no meio do inverno recarrega por semanas. Muitos brasileiros na Alemanha já fazem isso.

Movimento. Não precisa ser academia. Uma caminhada de 30 minutos ao ar livre estimula endorfina e serotonina — o que o inverno tira de você.

Contato humano. O inverno puxa para o isolamento. Resista. Mesmo uma ligação de vídeo ou um café com alguém. Melhor ainda: encontros regulares com pessoas que estão passando pelo mesmo.

Cuidado com o álcool. É tentador usar vinho ou Glühwein como conforto. Mas o álcool é um depressor do sistema nervoso. Alivia na hora e piora no dia seguinte.

Quando o dia a dia não basta

Se esses sinais persistem por mais de duas semanas, se você está funcionando no automático, se perdeu a vontade de fazer coisas que antes davam prazer — isso não é mais "só o inverno." É a sua saúde mental pedindo atenção.

E aqui aparece um problema prático: buscar ajuda psicológica na Alemanha pode ser mais uma frustração. Listas de espera de meses. Terapia disponível só em alemão. Consultas curtas.

Terapia online em português é uma alternativa que elimina essas barreiras. Sessão de 50 minutos, no seu idioma, com alguém que entende o contexto do brasileiro no exterior. Sem encaminhamento, sem fila, sem precisar traduzir o que sente.

Não é sobre curar o inverno. É sobre ter ferramentas para atravessar ele sem se perder no caminho. O sol volta. Sempre volta. A questão é como você chega até lá.

Giovanna Campana é psicóloga e psicanalista brasileira (CRP 06/75378), com mais de 20 anos de experiência clínica e especialização em psicoterapia intercultural. Casada com um alemão, atende brasileiros no exterior por videochamada.

info@giovannacampana.com

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